Jornal Público entrevista Depp

quinta-feira, 24 de julho de 2008


Essa entrevista é por volta de fevereiro desse ano, mas vale a pena conferir e saber um pouco mais o que Depp e seu trabalho mais recente que saiu nas telinhas: Sweeney Tood.

Desde que interpretou o frágil Eduardo de "Eduardo Mãos de Tesoura" (1990), de Tim Burton, Johnny Depp rodou mais cinco filmes com o realizador - o mais recente dos quais "Sweeney Todd: O Terrível Barbeiro de Fleet Street", pelo qual recebeu um Globo de Ouro para Melhor Actor de Musical ou Comédia e uma nomeação para os Óscares. Essa colaboração é das mais excêntricas do cinema contemporâneo.

"Sweeney Todd", ao contrário de qualquer filme que tenha feito anteriormente, este exigiu de Johnny o recurso a uma das suas aptidões até agora não utilizada: o canto. "Provavelmente estava mais assustado do que todos", comenta a rir. "Quando enviei a cassete de demonstração ao Tim, cruzei, literalmente, os dedos e fiquei à espera do veredicto." Após reservas iniciais, Johnny consegue cantar...

A rodagem não correu serenamente para o actor, já que Lily-Rose, a sua filha de sete anos, deu entrada de urgência no Hospital Great Ormond Street sofrendo de um misterioso vírus. "Dizer que foram momentos horríveis não é nada. É uma pálida descrição daquilo por que passei", diz com um suspiro, enquanto uma expressão sombria lhe tolda os olhos. Lily-Rose teve alta após passar nove dias no famoso hospital infantil, mas Johnny diz que o facto de ela ter estado internada acabou por fazê-lo mergulhar no lado mais obscuro de Sweeney. "Não conseguimos desanuviar a cabeça nas filmagens. E ainda menos desoprimir o coração, e tudo isso se reflecte nos olhos. Portanto, tentar evitar o que quer que estejamos a sentir na nossa vida é uma corrida de obstáculos que não temos hipótese de vencer. Quando está ali, está ali."

Porque razão o vemos sempre a interpretar personagens oprimidas?

Penso que por mero acaso. Não sei. Só sei que tenho muita sorte em ter tido a oportunidade de desempenhar personagens, quer sejam andróginos ou totalmente machos, como Eduardo em "Eduardo Mãos de Tesoura".
Como é que se sentiu a cantar em "Sweeney Todd"?
Inicialmente estava assustado, nunca tinha cantado na minha vida. Tinha de arranjar uma maneira de o fazer. Então comecei a fazer gravações da minha voz porque, para ser franco, não sabia se iria conseguir acertar numa nota sequer! Depois de ter conseguido uma gravação que me deixou satisfeito, enviei-a a Tim e cruzei os dedos.

Que aconteceu depois?

Ensaiei imenso - a toda a hora. Estava a acabar o terceiro filme de "Piratas das Caraíbas" e a viagem de carro de volta para casa demorava duas horas. Então aproveitava para ouvir a banda sonora vezes sem conta.
Teve de gravar a banda sonora antecipadamente? Cantou em "playback" enquanto representava?
Inicialmente ficou decidido que 50 por cento do trabalho era feito antes de começarmos a filmar e que iríamos cantar em "playback". Íamos para o estúdio de gravação, cantávamos a plenos pulmões e regressávamos às filmagens, onde iríamos cantar em "playback". Mas, na verdade, a única maneira de fazer aquilo como deve ser foi cantar outra vez nas filmagens, o que foi bastante vexatório! Mas, no fundo, também foi estranhamente libertador. Parecia que estávamos a rodar um filme mudo ou algo do género.

Disse uma vez que tem de ver alguma coisa de si em cada personagem que interpreta. Que parte de si é que viu neste impiedoso barbeiro assassino?

Acredito, sim, que temos sempre de trazer algum grau da nossa verdade aos papéis. Vou confessar aqui: já tinha barbeado um homem adulto, mas ele sobreviveu e até hoje anda por aí são e salvo.

Consegue compreender o desejo de vingança de Sweeney Todd?

A maior parte das pessoas não o admite, mas todos temos, secretamente, vingança dentro de nós. Sou grande fã da vingança. Esta é a história de um homem que se torna obcecado em vingar o horror que lhe aconteceu. E no final sente-se purificado. A morte de todas aquelas pessoas foi a parte mais fácil para mim. O mais difícil foi cobri-las com o creme de barbear e barbeá-las. Isso foi o que me assustou mais.

Frequentemente inspira-se noutras pessoas para as suas personagens. Em quem é que se inspirou para Sweeney Todd?

Houve quem dissesse que eu soava como David Bowie, mas eu nunca sonharia tentar imitar Bowie porque ele é um dos meus heróis. Se há qualquer semelhança, não foi intencional. Mas é um belo cumprimento que me fizeram. Inspirei-me numa série de pessoas: Lon Chaney [1883-1930], estrela do cinema mudo [chamavam-lhe "O Homem das Mil Caras" pela sua versatilidade, e pela versatilidade da maquilhagem, nos terrenos do grotesco e das personagens torturadas; é um marco a sua colaboração com o realizador Todd Browning, uma dezena de obras-primas em que se destaca "The Unknown", em 1927], ou actores como Boris Karloff [1887-1969; o imortal monstro de Frankenstein] e Peter Lorre [1904 -1964; foi o "serial killer" de "M-Matou", de Fritz Lang, e o patético patife que rodeava Bogart em "O Falcão de Malta" ou "Casablanca"], que adoro... E para dar um toque moderno, acrescentei um pouco de Iggy Pop - ele tem uma voz óptima e profunda.
Ouvi dizer que para Willy Wonka de "Charlie e a Fábrica de Chocolate" me inspirei em Michael Jackson, mas não, isso não esteve nos meus planos. Gostava de ter pensado nisso, de qualquer forma! Mas ainda há tempo de o interpretar. Ele talvez volte aos seus truques antigos e talvez se faça um filme de televisão sobre ele.

Fez muita pesquisa para o papel?

Sim, fiz! Sou louco por livros e aprendemos imenso ao mergulhar na vida de alguém como Sweeney Todd.

Tocou numa banda. "Sweeney Todd ..." reavivou o seu interesse pela música?

Ainda sou músico. A alegria de nos apaixonarmos por um instrumento musical é que isso nunca desaparece e nunca paramos de tocar. Entrei num musical há anos, "Quem não ama não chora"/"Cry Baby" [John Waters, 1990], mas tecnicamente era só metade de mim, porque não era eu a cantar. Tim [Burton] é a única pessoa suficientemente corajosa para me deixar cantar. Ora eu nem sequer canto no duche! Senti-me comprometido. Mas dissipados os receios iniciais, até foi agradável. Se voltarei a fazê-lo? Não! Se estou contente com a minha cantoria em "Sweeney Todd..."? Estou feliz porque já passou.

Já fez seis filmes com Tim Burton. Alguma vez se zangaram durante as filmagens?

Não, sempre nos demos bem. Temos uma ligação. Ele é como um irmão para mim - é como família. Mas porque somos tão próximos, não queria mesmo desapontá-lo.

É fã dos seus próprios filmes?

Custa-me bastante ver-me, e estou a ficar pior quanto a isso. Tento não olhar para mim - já é mau ver-me ao espelho de manhã quando estou a lavar os dentes.

A personagem de Jack Sparrow tornou-o muito famoso. Porque é que decidiu participar na saga "Piratas das Caraíbas" ?

Já tinha recusado um filme da Disney e disse-lhes que o que gostava mesmo de fazer era dobragens em animações, porque pensava que seria engraçado e algo que os meus filhos pudessem ver. E então apareceu "Piratas..." e eu disse, "OK, contem comigo". Tive imensa sorte. "Na Terra do Nunca" [Marc Forster, 2004] foi outro filme que achei que os meus filhos poderiam ver. Embora aí também haja cenas tristes, que não sei se gostaria que eles vissem - é um filme muito triste.

Diria que é uma pessoa vaidosa?

Toda a gente tem uma certa dose de vaidade. Precisamos disso nem que seja para lavar os dentes e sair de casa de manhã. Mas como actores temos de nos desembaraçar disso e dizer: "Seja o que for." Sempre fiz o meu melhor para evitar tornar-me um produto de Hollywood. Não procurei estrelato ou adulação. Durante muito tempo tinha muito êxito em ser um fracasso, mas as pessoas ainda me contratavam.
A minha família é o meu santuário. Vivo para eles agora. Encontrei uma razão para existir. Não há nada como isso. Se fosse preciso, ficaria sem nada do que tenho para conservar a minha família. Sinto que estou totalmente onde quero estar. 99,9 por cento disso é devido ao facto de ter sido abençoado com a minha mulher e os meus filhos. Eles deram-me vida e são o melhor presente do mundo. Por isso sinto-me muito realizado.

Devem enviar-lhe imensos argumentos - como é que decide o que quer e o que não quer fazer?

O meu agente faz a triagem do que é óptimo e do que é péssimo. Consigo dizer se um filme é para mim num instante. Normalmente, ao fim das três primeiras páginas já sei se é para mim.

O que é que se segue agora?

Eu e o Tim estamos a pensar fazer "Village People: The Ballet". Vamos ver o que dá. Aceitaria qualquer coisa que ele me propusesse fazer - até ballet.

Créditos: http://portalcinema.blogspot.com/2008/02/entrevista-johnny-depp.html

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